Senadores votam com democratas e testam unidade do partido, expondo fissuras sobre a política partidária do presidente. Quatro senadores republicanos marcaram posição e, num raro desafio ao presidente Donald Trump, migraram para o campo democrata na votação de uma resolução que buscava anular as tarifas dos EUA sobre o Canadá.
Tachados de desleais, os desertores irritaram o presidente, indicando a fragilidade de seu controle sobre o Senado.
A medida passou por 51 a 48, mas é simbólica: o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, antecipou que ela não tem força para ser aprovada. Tampouco seria sancionada pelo presidente. Seu impacto, contudo, tem valor porque expõe fissuras na unidade do partido controlado por Trump.
Os senadores Mitch McConnell, Rand Paul (ambos do Kentucky), Susan Collins (Maine) e Lisa Murkowski (Alasca) delinearam divergências em relação à política tarifária de Trump, logo depois que ele determinou taxação entre 10% e 50% sobre produtos tanto de países aliados quanto de desafetos dos EUA.
A resolução votada na quarta-feira no Senado visava a derrubar a declaração de emergência sobre o tráfico de fentanil, invocada por Trump para justificar as tarifas de 25% sobre os produtos canadenses. Já penalizado, o país vizinho não entrou na lista divulgada pelo presidente no seu fatídico "Dia da Libertação".
Ex-líder republicano no Senado, Mitch McConnell entrou em rota de colisão com o presidente, quando se recusou a barrar a certificação de Joe Biden em janeiro de 2021, e não poupou críticas sobre a sua política tarifária. "Guerras comerciais com nossos parceiros prejudicam mais os trabalhadores. Tarifas elevam o custo de bens e serviços. Elas são um imposto sobre os trabalhadores americanos comuns."
Os desertores apostaram no senso comum e resistiram à coerção pública de Trump. Pela sua rede social, ele chamou-os de desonestos e desleais e exigiu que "entrassem na onda republicana, para variar". Rand Paul rebateu, classificando as tarifas como inconstitucionais.
"Nossa Constituição é muito específica de que impostos se originam na Câmara, vão para o Senado e depois vão para o presidente. Que tipo de sistema teríamos se todos os nossos impostos e leis fossem aprovados por apenas uma pessoa?", questionou.
Nesse intuito de recuperar o controle do legislativo sobre o tema, outro senador republicano, Chuck Grassley, de Iowa, se juntou à democrata Maria Cantwell, de Washington, para apresentar um projeto de lei bipartidário, que visa a restringir a capacidade do presidente de promulgar tarifas unilateralmente. Se aprovado, exigiria que o presidente notificasse o Congresso sobre novas tarifas e a aprovação do Legislativo.
Aliado de Trump e no Congresso há meio século, Grassley expôs o ceticismo sobre a imposição de tarifas. Seu projeto tem poucas chances de ir adiante, mas serve, juntamente com os quatro colegas desertores que deram a cara a tapa, para evidenciar publicamente o desconforto e as divisões que reinam entre os republicanos na era protecionista determinada pelo presidente americano.
Fonte: G1